O sangramento em cirurgias cardíacas continua sendo um importante desafio clínico. No ACC 2025, o Dr. Michael Gibson* entrevistou o Dr. Keyvan Karkouti# sobre o estudo FARES-II, que investigou se o concentrado de complexo protrombínico (CCP) pode ser uma alternativa mais segura e eficaz ao uso de plasma.Para mais detalhes, acesse o link e confira o conteúdo completo!
* Médico Cardiologista Intervencionista, criador do site clinicaltrialresults.org, fundador do WikiDoc.org e WikiPatient.org e Correspondente Médico-Chefe do American College of Cardiology
# Médico Anestesista, Professor e Chefe do Departamento de Anestesia e Tratamento da Dor – University Health Network, do Sinai Health System e do Women’s College Hospital
Apresentado pelo Dr. Keyvan Karkouti durante o ACC2025, o estudo FARES-II (Four-factor Prothrombin Complex Concentrate vs. Fresh Frozen Plasma) comparou, de forma randomizada, o uso de concentrado de complexo protrombínico de quatro fatores (PCC, da sigla em inglês Prothrombin Complex Concentrate) com o plasma fresco congelado (FFP – da sigla em inglês Fresh Frozen Plasma) no manejo de sangramentos relacionados à deficiência de fatores de coagulação em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca. O sangramento excessivo, especialmente em cirurgias cardíacas complexas, permanece uma complicação frequente e associada a desfechos desfavoráveis, como necessidade de múltiplas transfusões, intubação prolongada, insuficiência renal aguda e aumento do tempo de internação.
Tradicionalmente, a reposição de fatores de coagulação tem sido feita com FFP, embora o seu uso envolva limitações importantes, como o grande volume necessário para atingir uma dose terapêutica e os riscos de sobrecarga circulatória e complicações respiratórias. O PCC, por outro lado, oferece uma concentração cerca de 25 vezes maior dos fatores de coagulação presentes no plasma, permitindo uma reposição mais rápida e eficaz com menor volume infundido.
O estudo incluiu 420 pacientes submetidos a cirurgias cardíacas em 12 centros do Canadá e dos Estados Unidos. Os participantes foram randomizados para receber PCC ou FFP como primeira medida terapêutica para sangramento intraoperatório associado à deficiência de fatores de coagulação. O desfecho primário foi a efetividade hemostática, avaliada em uma escala padronizada em até 24 horas após a intervenção.
Os resultados mostraram que o PCC foi significativamente superior ao FFP, com efetividade hemostática de 77,8% no grupo PCC versus 60,4% no grupo FFP (p < 0,001). Além disso, o uso de PCC esteve associado à redução no volume de transfusões alogênicas, com menor uso de concentrado de hemácias e plaquetas. Houve ainda uma redução de 50% nos casos de sangramento maciço e uma menor incidência de insuficiência renal aguda (10,3% com PCC vs. 18,8% com FFP).
Embora a análise de eventos adversos tenha caráter secundário e exploratório, os dados apontam para um perfil de segurança favorável ao PCC, sem aumento de eventos tromboembólicos. O Dr. Karkouti destacou que o PCC 4 pode substituir o FFP em até 95% dos casos de sangramento intraoperatório em cirurgia cardíaca, representando uma mudança potencial na prática clínica. A análise de custo-efetividade ainda está pendente, mas os autores esperam que, ao reduzir transfusões e complicações, o PCC se mostre vantajoso mesmo em cenários onde o custo unitário seja mais elevado.
Os autores reforçam que, embora promissores, os achados devem ser confirmados em estudos futuros com maior poder para desfechos clínicos e econômicos, e que os resultados se aplicam ao perfil de pacientes incluídos — excluindo, por exemplo, casos com eventos trombóticos recentes.