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sexta-feira abr 4, 2025

ACC2025 | FARES II: CCP mostra superioridade ao Plasma Fresco no controle de sangramento em cirurgia cardíaca

Escrito por: MDHealth em 4 de abril de 2025

3 min de leitura

O sangramento em cirurgias cardíacas continua sendo um importante desafio clínico. No ACC 2025, o Dr. Michael Gibson* entrevistou o Dr. Keyvan Karkouti# sobre o estudo FARES-II, que investigou se o concentrado de complexo protrombínico (CCP) pode ser uma alternativa mais segura e eficaz ao uso de plasma.Para mais detalhes, acesse o link e confira o conteúdo completo! 

* Médico Cardiologista Intervencionista, criador do site clinicaltrialresults.org, fundador do WikiDoc.org e WikiPatient.org e Correspondente Médico-Chefe do American College of Cardiology 

# Médico Anestesista, Professor e Chefe do Departamento de Anestesia e Tratamento da Dor – University Health Network, do Sinai Health System e do Women’s College Hospital 

 

Apresentado pelo Dr. Keyvan Karkouti durante o ACC2025, o estudo FARES-II (Four-factor Prothrombin Complex Concentrate vs. Fresh Frozen Plasma) comparou, de forma randomizada, o uso de concentrado de complexo protrombínico de quatro fatores (PCC, da sigla em inglês Prothrombin Complex Concentrate) com o plasma fresco congelado (FFP – da sigla em inglês Fresh Frozen Plasma) no manejo de sangramentos relacionados à deficiência de fatores de coagulação em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca. O sangramento excessivo, especialmente em cirurgias cardíacas complexas, permanece uma complicação frequente e associada a desfechos desfavoráveis, como necessidade de múltiplas transfusões, intubação prolongada, insuficiência renal aguda e aumento do tempo de internação. 

Tradicionalmente, a reposição de fatores de coagulação tem sido feita com FFP, embora o seu uso envolva limitações importantes, como o grande volume necessário para atingir uma dose terapêutica e os riscos de sobrecarga circulatória e complicações respiratórias. O PCC, por outro lado, oferece uma concentração cerca de 25 vezes maior dos fatores de coagulação presentes no plasma, permitindo uma reposição mais rápida e eficaz com menor volume infundido. 

O estudo incluiu 420 pacientes submetidos a cirurgias cardíacas em 12 centros do Canadá e dos Estados Unidos. Os participantes foram randomizados para receber PCC ou FFP como primeira medida terapêutica para sangramento intraoperatório associado à deficiência de fatores de coagulação. O desfecho primário foi a efetividade hemostática, avaliada em uma escala padronizada em até 24 horas após a intervenção. 

Os resultados mostraram que o PCC foi significativamente superior ao FFP, com efetividade hemostática de 77,8% no grupo PCC versus 60,4% no grupo FFP (p < 0,001). Além disso, o uso de PCC esteve associado à redução no volume de transfusões alogênicas, com menor uso de concentrado de hemácias e plaquetas. Houve ainda uma redução de 50% nos casos de sangramento maciço e uma menor incidência de insuficiência renal aguda (10,3% com PCC vs. 18,8% com FFP). 

Embora a análise de eventos adversos tenha caráter secundário e exploratório, os dados apontam para um perfil de segurança favorável ao PCC, sem aumento de eventos tromboembólicos. O Dr. Karkouti destacou que o PCC 4 pode substituir o FFP em até 95% dos casos de sangramento intraoperatório em cirurgia cardíaca, representando uma mudança potencial na prática clínica. A análise de custo-efetividade ainda está pendente, mas os autores esperam que, ao reduzir transfusões e complicações, o PCC se mostre vantajoso mesmo em cenários onde o custo unitário seja mais elevado. 

Os autores reforçam que, embora promissores, os achados devem ser confirmados em estudos futuros com maior poder para desfechos clínicos e econômicos, e que os resultados se aplicam ao perfil de pacientes incluídos — excluindo, por exemplo, casos com eventos trombóticos recentes. 

Referência

  1. Keyvan Karkouti, Callum JL, Justyna Bartoszko, Tanaka KA, Knaub S, Brar S, et al. Prothrombin Complex Concentrate vs Frozen Plasma for Coagulopathic Bleeding in Cardiac Surgery. JAMA. 2025 Mar 29. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2832096. Acesso em: 30/03/2025